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O Homem de Ferro
Iron Man, EUA, 2008

A vida do inventor e maior fornecedor de armas do governo americano Tony Stark nunca mais será a mesma depois que ele é atacado e mantido refém por um grupo de rebeldes afegãos. Ferido por estilhaços de granada que se alojam perto de seu coração, Tony recebe a ordem de construir no cativeiro uma devastadora arma, mas, em vez disso, usa suas habilidades para criar uma armadura que permite que ele consiga fugir. Ao retornar aos Estados Unidos, Tony promete dar um novo rumo às Indústrias Stark. Ele passa dias e noites desenvolvendo e aperfeiçoando uma avançada armadura que lhe propiciará uma força sobre-humana. Quando Tony descobre um plano abominável com implicações globais, jura proteger o mundo como sua nova personalidade, o Homem de Ferro. Extras: Uma das histórias em quadrinhos originais da Marvel, Homem de Ferro teve um longo e próspero trajeto desde as primeiras aparições do personagem, em abril de 1963. Criado por Stan Lee, Larry Lieber, Don Heck e Jack Kirby, o alter ego do "Homem de Ferro", Tony Stark, foi inspirado em parte pela personalidade do ícone americano Howard Hughes. “Hughes era um inventor, aventureiro, multimilionário, galanteador e também um doido”, diz o produtor executivo Stan Lee. Foi o caráter imperfeito do super-herói e seu estilo de vida de playboy que fizeram as histórias em quadrinhos do "Homem de Ferro" virarem a próxima franquia da Marvel e o primeiro filme sob a nova bandeira da empresa, Marvel Studios. Logo no início da produção do filme, a Marvel encarou o desafio de encontrar um diretor que não apenas desse conta dos aspectos técnicos que envolvem a execução de um grandioso filme de ação, mas alguém que pudesse sobretudo introduzir no enredo o elemento humano tão presente nos personagens de histórias em quadrinhos. Para a equipe criativa da Marvel, a potencial lista de diretores começou e terminou com Jon Favreau.

Devo confessar que nunca fui muito de quadrinhos. Nada contra, mas, exceto pelos personagens criados por Maurício de Souza, não adquiri o hábito de ler estas histórias. Como conseqüência, tinha pouco conhecimento dos super-heróis da Marvel e DC até as recentes adaptações ao cinema. Isso vale também para o Homem de Ferro, personagem sobre o qual conhecia, se tanto, o traje. Então, minha avaliação sobre esta adaptação baseia-se exclusivamente na produção cinematográfica, despida de qualquer pré-julgamento ou expectativas de um fã. E a experiência foi bastante agradável.

A versão para o cinema começa com Tony Stark, multimilionário magnata da indústria de armas, sofrendo atentado em algum lugar do Afeganistão. Capturado, Stark é salvo da morte graças a um aparelho instalado no peito que impede estilhaços de granada entrarem em seu coração, enquanto é obrigado a construir um míssil para o grupo terrorista. Utilizando sua inteligência, Stark acaba por montar uma armadura especial para escapar do local, fato no qual é bem-sucedido. Quando retorna aos Estados Unidos, decide aperfeiçoar o traje que havia montado e partir em uma cruzada contra seus próprios demônios

 

                   

Esta é a principal qualidade de Homem de Ferro: Tony Stark, ao contrário de outros super-heróis, não decide apenas combater o crime, mas busca uma forma de se redimir dos erros do passado. Em meio às explosões e efeitos especiais, no núcleo de Homem de Ferro está a jornada de um personagem rumo à redenção. Stark, ao ver-se vítima dos próprios produtos que constrói, adquire nova consciência em relação ao seu papel, deixando de ser apenas um bon vivant para entender que pode e deve usar sua influência e talento por algo que faça a diferença para o bem

A transformação do personagem, aliás, é apresentada de forma crível graças, principalmente, à interpretação de Robert Downey Jr. Se o roteiro apressa-se um pouco nesta mudança, ainda que deixe bem claro as razões para tal, a capacidade do ator faz com que o espectador jamais duvide da nova postura de Tony Stark. Intérprete comprovadamente hábil, Downey Jr. dá um show como o protagonista: no primeiro momento, evita que Stark torne-se um arrogante repulsivo, apresentando-o como um playboy divertido; em seguida, assume a densidade pedida pelo personagem, evitando excessos para apresentar esta transformação.

Mais do que isso, a escolha de Downey Jr., uma opção no mínimo inusitada para o papel de super-herói, garante o tom realista que Homem de Ferro pretende transmitir. O ator, exatamente por não possuir o perfil de alguém capaz de combater o crime, cria um personagem humano e verossímil, tornando o filme mais próximo da abordagem de Batman Begins do que o clima fantasioso de Homem-Aranha. Claro, ele ainda voa a velocidade ultra-sônica e sobrevive a quedas quilométricas, mas a produção intenciona manter os pés na realidade, fazendo crer que um gênio Tony Stark seria capaz de construir algo como o traje do Homem de Ferro.

Outro acerto do roteiro que igualmente colabora para o tom realista adotado pelo diretor Jon Favreau é a subtrama envolvendo o comércio de armas. De maneira crítica, Homem de Ferro aponta a hipocrisia da política norte-americana de lucrar com a venda de armamentos para as mesmas pessoas e grupos com os quais terá que combater em guerras no futuro – muitas vezes provocadas por eles mesmos. Quando Tony Stark percebe o verdadeiro destino e a forma como são utilizados os produtos de sua empresa, entende que o papel desempenhado por ele até então, ao contrário do que acreditava, é o de vilão. Obviamente, a análise é realizada de maneira superficial, mas é sempre agradável quando uma superprodução como Homem de Ferro tem a coragem de levantar bandeiras críticas como essa.

Enquanto isso, Jon Fraveau – escolha para a direção tão ou mais surpreendente que Downey Jr. para o papel principal – demonstra não apenas segurança no comando do filme, mas também uma visão clara sobre a história que está contando. O cineasta, responsável pelos medianos Um Duende em Nova York e Zathura, equilibra bem a jornada do personagem com o lado grandioso de Homem de Ferro, fazendo com que os efeitos especiais e cenas de ação façam parte da trama, ao contrário de serem a própria. Além disso, ainda que longe de geniais, estas seqüências são empolgantes e bem dirigidas, especialmente a que envolve o duelo de Stark com dois caças norte-americanos.

Por outro lado, Homem de Ferro perde bastante a qualidade em seus últimos trinta minutos. Até então, o filme não havia apresentado qualquer vilão propriamente dito, preferindo, como já comentei, fazer com que Stark utilizasse sua invenção para corrigir seus erros. É uma pena, portanto, que o roteiro acabe forçando um antagonista para Stark, principalmente um que até o momento não dera qualquer sinal de que pudesse seguir por este caminho. Não há motivação ou justificava para suas ações e, a partir deste momento, a produção sai um pouco dos trilhos.

Da mesma forma, Favreau ainda comete outros pecados comuns em filmes do gênero, como alguns diálogos infantilóides e cenas forçadas, como a do personagem morrendo enquanto diz as últimas palavras e o download que termina no exato instante em que o vilão olha para a tela. O interesse romântico do protagonista também poderia ser desenvolvido com mais cuidado: Pepper Potts não ganha espaço suficiente em tela para que o espectador conheça-a melhor, mesmo que Gwyneth Paltrow conquiste a simpatia da platéia.

Como resultado final, Homem de Ferro é um bom filme de ação e um interessante primeiro passo para a série – e a frase final de Tony Stark já dá o gancho perfeito para a continuação. Possui sua série de problemas, mas a abordagem de Jon Favreau e o carisma e talento de Robert Downey Jr. garantem facilmente a recomendação. E, claro, ouvir o clássico riff do Black Sabbath também não prejudica em nada

Por Silvio Pilau
03/05/2008

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